Blue Umbrella

Wednesday, December 02, 2009 @ 12:26 AM
Enquanto a chuva cai em sua forma delicada, mas muito presente, de gotas finas e geladas no guarda-chuva azul, eu desço a rua. Meu pés já encharcados por conta do tênis furado que eu teimo em usar e que sempre me deixam na mão em tempos como este... Recostada em minhas músicas tocando aleatoriamente no mp3, ouço Dig e mexo os lábios de acordo com a letra da música. Aperto minha bolsa contra mim e tento proteger-me com o guarda-chuva, mas como ele é pequeno, não ajuda tanto assim.

Durante minha caminhada ao descer a rua, repenso em momentos da minha vida pelos quais passei e chego àquela conclusão:

A vida não é justa.

Pessoas vão embora, pessoas morrem, pessoas não se importam, músicas acabam, dados se perdem, paixões se exterminam. Parar pra pensar no quão difícil é cada tarefa não ajuda, uma vez que você tem que passar por cada uma, independendo da dificuldade, como se não houvesse fim. É como já cansei de ler num texto escrito por um amigo: "Não se trata da força que você bate, mas sim a força que você tem de continuar apanhando", faz sentido pra mim.

Como numa linha do tempo, passando da falta de ordem cronológica dos pensamentos para a linha cronológica da realidade, são mais de sete horas da noite e começa a escurecer na minha rua. A chuva continua caindo e minha calça se agarra às minhas pernas, passando o frio cortante do tecido para a pele, me fazendo querer apressar o caminho, mas estou muito em paz para correr. Me molharei de qualquer jeito. A música ainda não acabou e pensar na letra me faz sentir bem.
A vida não é tão ruim, afinal de contas. Eu gosto de chuva, gosto de azul e gosto de Dig. Aparentemente, a vida te bate com força mas recompensa em poucos detalhes, quase imperceptíveis. Por isso não é justa... Se fosse justa seria muito fácil, e pra buscar facilidade pensamos de modo racionalista. Racionalismo é bom. Nem tanto. Racionalmente eu deveria estar correndo para chegar logo em casa e tirar essa roupa molhada... Agora tem vento também, e o vento manda o frio cortante para minhas maçãs do rosto... Mas pra quê pressa? A música ainda não acabou.
Reflexão é sinal de racionalismo, misto com sentimentalismo. Dos baratos. Se aprofunda de forma semelhante à água indo das minhas calças para minhas pernas; sentimentalismos são absorvidos de fora para as entranhas. Depois de passar dias tentando resolver como me portar diante de alguma situação, ansiosa e preocupada, agora descendo a rua faz sentido. Descobri a falta de preocupação. Primeira vez que a falta de alguma coisa me traz benefícios. Falta de preocupação moderada me faz pensar menos. Pensar menos me faz descansar. Descansar é ouvir Dig ao som da chuva, com as gotas de água frias recostando-se nos meus lábios quentes, como quem procura traço de afeto em braços estranhos. Traços de desespero. A rua desaparece conforme fecho meus olhos e ouço a voz da música por uma fração de segundo. Paz. Agora posso entrar em casa.

2 surprises

  1. Anonymous Says:

    e a música continua tocando...

  2. willian Says:

    "continue a nadar, continue a nadar"